segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Simples.

Não. Nada nunca foi tão simples. Olhava aquelas pessoas sorrindo com seus companheiros, e pensava como aquela mágica era possível. 'Como eles conseguiam?' 'Como é que conseguem se olhar assim, apesar da rotina, e dor, e cansaço?' 'O que fazem com o desejo que brota dentro do peito, quando é direcionado a outro belo ser?' 'O que fazem com a vontade de ir embora?' 'O que fazem quando querem desistir no meio do caminho, quando o encanto acaba, quando querem correr mas não podem, e precisam esperar o momento ideal?' 'Para onde vão todos aqueles sonhos juvenis?' ...

Deus do céu, nada nunca foi tão simples. Não pode ser. Não há como calar ideias questionadoras. Não há como entender que o risco é que faz a relação, que nada exibe uma perfeita segurança. Que o que flui não tem complicação.

Ah, o que flui não tem complicação... Não tem confusão. Não fica a água e pão. Não é pensado, é sentido. Não há complica a ação. Há simplifica a ação.

Então, pode ser simples?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Resposta.

Eu gosto da tua parte escura, do mesmo jeito que tenho medo dela.
O comum não me interessa.
Eu gosto do que está guardado, escondido.
Gosto da tua parte mais profunda, do que quase ninguém vê.
Tuas reflexões, tuas visões, tua forma de amar, tudo profundo.
Gosto da tua tristeza, do teu se trancar no escuro, do teu medo da vida.
Da tua religiosidade.
Da familiaridade.
Da tua musicalidade.
Da verdade que você busca incessantemente, todos os dias.
Da tua parte mais interessante, mais linda, mais dolorida, mais confusa e mais profunda.
Eu gosto de onde consigo te enxergar de perto.

sábado, 20 de novembro de 2010

Coisa alguma.

‎'Dói-te alguma coisa? - Dói-me a vida, doutor. (...) - E o que fazes quando te assaltam essas dores? - O que melhor sei fazer, excelência. - E o que é? - É sonhar.'

Mia Couto

Findas.

'Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.'

Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Devagar.

Vem devagar, bem suavemente.
Envolve.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Apagar-me

'Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.'

Paulo Leminski

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lenda no chá das cinco.

Ela começou a chorar. Não, chorar não, que não chorava muito.
Ria descontroladamente. Não, não...
Saiu por aí colocando a energia da vida pra fora. Foi mostrar a face na noite. Não, não, não...
Relembrou da mágica da vida. Não.


Estava doendo. Tudo pulsava num descompasso. Ela temia. Ela repensava. Ela se fazia sofrer.
Apesar disso, o chá das cinco ainda era servido, todos os dias. Sim, sim, sim.

E ela, ia fazer o que com essa bagagem? Ela não sabia, não sabia.
Ia... Ficar por ali. Relembrando ser gente. Relembrando o espelho. Pensando nas armadilhas da sua mente e do seu coração.
Ia, ia ficar por ali. Relembrando a luz cortante da escuridão. Acreditando na força puxante da vida. Pulsante.

Mas, por enquanto, acreditando, só. Só acreditando.